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ToggleTrail running feminino: a história da Domi e como a Patagônia mudou tudo
Escrito por
Gabriel e Dominique
Casal brasileiro morando de motorhome na Patagônia argentina há 3 anos. Já vivemos em El Calafate, Ushuaia, San Martin de los Andes e Bariloche. Dominique é ultramaratonista de montanha e resgatista certificada, com mais de 3 Patagonia Runs no currículo. Gabriel é apaixonado por trekking e alta montanha. E o Pachê, nosso pug pretinho de 14 anos, viaja com a gente em cada aventura.
⚡ Resposta rápida
Sou a Domi, do Vale Liberdade. O trail running feminino mudou a minha vida em etapas: comecei na corrida de rua em 2016, descobri a montanha em 2018 e só fui evoluir de verdade quando cheguei na Patagônia argentina, em 2022. Foi aqui que o medo de correr sozinha foi embora. E foi aqui que nasceu a Corre Nômade, que hoje leva grupos de mulheres para correr em Bariloche e El Chaltén.
- Minha primeira prova longa foi a Ushuaia Trail Race, 30 km de montanha, em janeiro de 2022
- O maior obstáculo do trail running feminino não é físico, é o medo de estar sozinha na trilha
- O Corre Bariloche já correu Refúgio Frey, Refúgio López e Circuito Chau Chau, só entre mulheres
Quando um amigo me mandou a foto de uma corredora em 2018, eu nem sabia que existia um esporte chamado trail run. Hoje o trail running feminino é o centro da minha vida, e o motivo pelo qual a gente leva grupos de mulheres para correr na Patagônia argentina. Mas o caminho do asfalto de São Paulo até as trilhas de Bariloche não foi linha reta. Teve lesão, medo e três meses parada. Tem muito perrengue que ninguém conta. Eu conto aqui, do começo, do jeito que aconteceu comigo.
Índice
- Como tudo começou: do asfalto para o trail running (2016-2018)
- A lesão que me ensinou a escutar o corpo
- Motor home, estrada e o maior obstáculo: o medo
- A Patagônia como virada
- Ushuaia Trail Race: meus primeiros 30 km de montanha
- El Chaltén e o nascimento da Corre Nômade
- O que é o Corre Bariloche e o Corre El Chaltén
- Como qualquer mulher pode começar a correr na montanha
Como tudo começou: do asfalto para o trail running (2016-2018)
Em 2016 eu corria parque, asfalto e mais parque em São Paulo, sem treinador, sem grupo, montando os treinos da minha cabeça. Dois anos inteiros pra sair das provas curtinhas e chegar nos 21 km. Tudo no tentativa e erro, com informação solta que eu achava na internet.
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Pois é, foi assim. Ia aumentando a quilometragem aos poucos: 10, 15, depois os 21. Me inscrevia em prova de rua de vez em quando e continuava. Sempre gostei de trekking também, já tinha feito algumas montanhas de altitude. Mas nunca imaginei que dava para juntar as duas coisas num esporte só.
Em 2018 um amigo mandou a foto de uma corredora chamada Fernanda Maciel com a mensagem: “Nossa, Domi, você deve adorar ela.” Não conhecia. Fui atrás do nome, descobri que ela é ultramaratonista brasileira com vários recordes em corrida de montanha. Aí caiu a ficha de que existia o trail run. Minha primeira meta virou simples: encontrar um grupo para conhecer trilhas perto de São Paulo, porque eu não sabia de nenhuma para correr.
Se você vem da corrida de rua e quer migrar para o trail, procura um grupo ou uma assessoria antes de sair sozinha. Eu perdi tempo montando treino de cabeça. Fica a dica: boa orientação no começo evita a lesão que quase me parou de vez.
A lesão que me ensinou a escutar o corpo, e o que mudou depois
Em 2019, na minha estreia mais séria em montanha, no Pico do Diamante, em Campos do Jordão, eu cometi o erro que quase todo mundo comete: achei que dava para correr em trilha a mesma quilometragem do asfalto. Saí para 18 km, me lesionei e fiquei de três a quatro meses fora.
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A gente chegou cedo, com a assessoria e um monte de amigos. Inclusive foi nesse grupo que conheci meninas que são minhas amigas até hoje. Quando cheguei no cume estava aquele céu super azul em cima e um tapete de nuvens lá embaixo, tudo do jeito que eu sempre amei na montanha. Só que durante a subida começou uma dor na lombar. Foi aumentando, aumentando. Quando terminei a corrida eu mal conseguia caminhar. Era uma contratura na lombar com problema no ciático que não passava.
Tive que parar tudo. Fisioterapia, tratamento e um processo longo até entender como o corpo responde à corrida de trilha. A montanha pede um fortalecimento bem diferente do asfalto: tornozelo, quadril e core trabalham o tempo todo para segurar o terreno irregular. Foi escutando o corpo, respeitando o limite, que aprendi a treinar de verdade.
📍 Pico do Diamante, Campos do Jordão no Google Maps
Motor home, estrada e o maior obstáculo do trail running feminino: o medo
2021. Eu, o Ga e o Pachê numa estrada do interior do Brasil, trilha nova, ninguém por perto. E eu no carro, sem coragem de descer. O maior obstáculo do trail running feminino não é a perna, é o medo de estar sozinha na mata.

A gente decidiu morar de motor home em 2021, e o primeiro ano foi rodando o Brasil. Perrengue total para evoluir na corrida, mas não por preparo físico. Eu não queria ir para a trilha sozinha. Medo de encontrar alguém mal intencionado, medo de me perder, medo de não saber me localizar se desse errado.
Antes do motor home eu tinha academia fixa, grupo, lugares conhecidos para treinar. Na estrada nada disso existe. Todo o meu treinamento passou a ser online, à distância, sem ponto fixo. E sem companhia para as trilhas, porque era só eu, o Ga e o Pachê rodando.
Esse primeiro ano me forçou a montar uma base de segurança do zero. Comecei a andar sempre com spray de pimenta. Passei a usar um comunicador satelital chamado SPOT, que manda minha localização mesmo sem sinal de internet, então alguém sempre sabe onde estou. E me enfiei nos estudos: li muito sobre montanha, sobre como não se perder no meio da trilha, sobre ler mapa. Foi aos poucos, mas a confiança foi vindo.
“O maior obstáculo de uma mulher na montanha quase nunca é o físico. É o medo de estar sozinha, e isso se resolve com preparo e companhia certa.”
A Patagônia como virada, onde o medo foi embora de vez
Bariloche foi onde o trail running feminino finalmente engrenou pra mim. A gente cruzou para a Argentina, chegou na região patagônica, e eu comecei a correr sozinha sem aquele alerta constante. Trilhas bem marcadas, gente fazendo montanha em todo canto, uma tranquilidade que a gente não acha em todo lugar.

No Brasil eu carregava aquele alerta o tempo todo. Na Patagônia, não. Bariloche, o Lago Nahuel Huapi, o Cerro Catedral viraram meu quintal de treino. Que demais sair, voltar inteira e ainda ter história boa para contar. A quilometragem deslanchou de verdade.
Foi nessa fase que o trail running deixou de ser um sonho engasgado pelo medo e virou prática diária. Cada saída dava mais base para a próxima. A Patagônia não me deu só paisagem, me deu segurança.
Em Bariloche, as trilhas do Cerro Catedral, a 19 km do centro, são um ótimo primeiro contato com a montanha. Saem do estacionamento da base, têm fluxo de gente e ficam abertas no fim de semana até a virada do outono. Fica a dica para quem está soltando o medo de correr na Patagônia.
Ushuaia Trail Race: meus primeiros 30 km de montanha
Janeiro de 2022, extremo sul da Patagônia: saí do motor home às 7h da manhã, uns 8°C, e fui largar na Ushuaia Trail Race, 30 km de montanha. Foi ali que entendi, no corpo mesmo, a diferença entre trail running e corrida de montanha. E foi onde percebi que o terreno técnico é o meu lugar.

Janeiro tem mais de 17 horas de luz ali no sul. Estacionamos o motor home perto da largada e eu fui. O percurso é pedra, raiz, piso instável o tempo todo. Nada de corrida urbana. Terminei toda viva, no melhor sentido: consegui, me desafiei, cumpri. Que demais.
Depois dessa prova não parei mais de explorar. Saímos de Ushuaia para El Calafate e seguimos para El Chaltén, que é a capital do trekking da Argentina. Cada lugar somava mais quilômetro e mais confiança na bagagem.
| Marco | Ano | Distância / dado |
|---|---|---|
| Primeira corrida de rua | 2016 | provas curtas até 21 km |
| Descoberta do trail run | 2018 | via Fernanda Maciel |
| Lesão no Pico do Diamante | 2019 | 3 a 4 meses parada |
| Mudança para o motor home | 2021 | treino 100% online |
| Ushuaia Trail Race | 2022 | 30 km, primeira prova longa |
📍 Ushuaia, Terra do Fogo no Google Maps
El Chaltén e o nascimento da Corre Nômade
El Chaltén, capital do trekking argentino, foi onde o trail running feminino deixou de ser só esporte e virou propósito. Foi lá que criei a Corre Nômade, um perfil meu dedicado 100% à corrida, separado do Vale Liberdade, mas conversando com ele o tempo todo.

Fiz muitas trilhas ali, com o Fitz Roy de cenário. Cada saída lembrava do quanto eu tinha evoluído desde aquele primeiro medo de correr sozinha. No Vale Liberdade eu já vinha falando da dificuldade real que a mulher enfrenta para correr sozinha: o risco, o medo, a necessidade de saber se defender.
Aí veio a parte que eu não esperava. Comecei a receber muita mensagem de mulher perguntando exatamente isso. Como você faz para correr sozinha. Como lida com o medo. O que você leva. Era tanta gente passando pelo mesmo perrengue que passei, que ficou claro: não era só meu, era de um monte de mulher.
O que é o Corre Bariloche e o Corre El Chaltén, e por que só entre nós
O Corre Bariloche já teve grupo fazendo Refúgio Frey, Refúgio López e Circuito Chau Chau num mesmo final de semana, hospedado de frente pro Lago Gutierrez, só entre mulheres. Isso é o Corre: trail running de verdade na Patagônia argentina, com a segurança de estar em grupo, conduzido por mim.

A escolha de ser só entre mulheres não é detalhe. É o coração da coisa. O grupo flui de um jeito diferente, as conversas são mais reais, a troca acontece de verdade. São histórias, emoção e muito propósito numa trilha só. Quando você tira a equação do medo, sobra espaço pra mulher simplesmente correr e se desafiar. Fica a dica: isso você não encontra em grupo misto.
Ficamos numa casa de frente para o Lago Gutierrez, dentro do condomínio Arelauquen, em Bariloche. Daquele grupo se formou uma turma que conversa até hoje. Muitas já estão prontas para a próxima edição, que vai ser em El Chaltén. Pois é, a coisa cresceu.
O Refúgio Frey é a minha trilha favorita, já subi umas 20 vezes. São 10 km de ida: os primeiros 6 km tranquilos e do km 6 ao 10 a coisa fica séria, um perrengue gostoso. O Refúgio López é mais íngreme, com cerca de 900 m de desnível em 9 a 10 km, e uma das vistas mais bonitas da região no topo. Percursos perfeitos pra viver o trail running feminino com estrutura e gente do seu lado.

O Refúgio Frey tem 4G no topo e exige reserva para dormir. Para correr no dia, saia cedo do estacionamento do Cerro Catedral e leve casaco corta-vento: o clima de montanha vira em minutos. Reúno tudo isso, com fotos das nossas próprias trilhas, no nosso e-book de Bariloche.
📍 Refúgio Frey, Bariloche no Google Maps
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Como qualquer mulher pode começar a correr na montanha
Qualquer mulher pode começar no trail running feminino, e o segredo é não repetir o meu erro de 2019: nunca leve para a montanha a quilometragem que você faz no asfalto. Comece com 5 a 8 km em trilha técnica, invista em fortalecimento de tornozelo e quadril, e cuide da segurança desde o primeiro dia. O corpo responde, e rápido, quando você não exagera no começo.
A diferença entre rua e montanha não é só a paisagem. O terreno muda tudo: ritmo, técnica, fortalecimento, equipamento. Olha o comparativo que eu uso para explicar para as meninas que estão começando.
| O que muda | Corrida de rua | Trail running |
|---|---|---|
| Terreno | piso regular, plano | pedra, raiz, subida e descida |
| Ritmo | constante, por pace | varia muito, caminha nas subidas |
| Fortalecimento | foco em pernas e fôlego | tornozelo, quadril, core e estabilidade |
| Tênis | amortecimento para asfalto | solado com cravo para aderência |
| Segurança | rua movimentada, sinal de celular | comunicador, mapa, casaco, avisar percurso |
Na parte de segurança, repito o que aprendi na marra: ande com spray de pimenta e tenha um comunicador satelital, tipo o SPOT, que manda localização sem internet. Aprenda a ler mapa e avise sempre alguém do percurso antes de sair. Leve água e um corta-vento, porque na Patagônia o clima vira em 20 minutos. Essas coisas simples são o que separam um perrengue bobo de um problema sério.
E olha, se você bateu o olho nessa tabela e pensou “eu queria fazer isso, mas tenho medo de ir sozinha”, o Corre é pra você. A ideia é juntar mulher com mulher, tirar o medo da conta e deixar só a montanha, a trilha e a troca. Foi o jeito que achei de entregar pronto o caminho que levei anos para construir.
No começo, faça a mesma trilha mais de uma vez antes de partir para uma nova. Conhecer o caminho reduz a ansiedade e a chance de se perder. Foi assim, repetindo trilhas conhecidas, que eu fui ganhando confiança para correr sozinha na Patagônia.
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❓ Perguntas frequentes sobre Trail running feminino: a história da Domi e como a Patagônia mudou tudo
O que é trail running feminino e por que correr em grupo de mulheres?
Trail running feminino é corrida de montanha feita em trilhas, não em asfalto. Correr em grupo só de mulheres resolve o maior obstáculo do esporte: o medo de estar sozinha na trilha. O ritmo respeita cada uma, a troca flui diferente, e o ambiente é completamente outro.
Qual a diferença entre corrida de rua e trail running?
Corrida de rua é piso regular, ritmo constante. Trail é terreno irregular: subidas, descidas, pedras, raízes. O trail exige fortalecimento de tornozelo, quadril e core, tênis com mais aderência e a habilidade de caminhar nas subidas sem se sentir derrotada por isso. Quem vem da rua precisa reduzir a quilometragem no começo pra não se machucar.
Preciso ser experiente para começar a correr na montanha?
Não precisa. Dá pra começar com trilhas curtas e técnicas básicas de segurança: avisar alguém do percurso, levar água e casaco corta-vento. Fica a dica: o erro mais comum é querer repetir na montanha a mesma distância do asfalto. Começa com 5 a 8 km e vai aumentando conforme o corpo responde.
É seguro uma mulher correr sozinha em trilhas na Patagônia?
A Patagônia argentina é uma das regiões mais tranquilas pra correr, com trilhas bem sinalizadas em Bariloche e El Chaltén. Pois é, mesmo assim eu recomendo: spray de pimenta, comunicador satelital como o SPOT (envia localização sem internet) e saber ler mapa. Pra quem está começando, ir em grupo de mulheres é o caminho mais seguro.
O que é o Corre Bariloche e o Corre El Chaltén?
São experiências de corrida e turismo só para mulheres, conduzidas por mim na Patagônia argentina. O Corre Bariloche já levou grupos a trilhas como o Refúgio Frey, o Refúgio López e o Circuito Chau Chau, com hospedagem em frente ao Lago Gutierrez. A ideia é simples: correr na montanha de forma segura, entre mulheres, sem precisar se justificar pelo ritmo.
No fim, o trail mudou tudo
Quando olho pra trás, do asfalto de 2016 até as trilhas de Bariloche hoje, a coisa que mais me surpreende é o quanto o trail me ensinou fora da corrida. A escutar o corpo quando ele pede pra parar. A respeitar o morro quando a névoa fecha. A encarar o perrengue sem esperar que ele passe sozinho. A Patagônia foi onde tudo isso se encaixou, e poder dividir esse caminho com outras mulheres na Corre é a parte que mais vale. Se você se reconheceu em algum pedaço disso, vem. A montanha cabe todo mundo.
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Corre — corrida feminina na Patagônia
Grupos só de mulheres para correr as trilhas da Patagônia em segurança, conduzidos pela Domi (ultramaratonista). Não é competição: é viver a montanha, ganhar confiança e dividir a estrada com mulheres que também buscam aventura.




